Prefeito tenta desqualificar o trabalho investigativo da Polícia Federal: ” Tem que ver qual tipo de informação que foi apresentada”
Por Carol Ribeiro
O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (UB), reagiu, em uma série de entrevistas, à deflagração da operação que cumpriu mandados de busca e apreensão afirmando enfrentar o episódio “de cabeça erguida” e reiterando inocência. No entanto, ao comentar as razões que teriam levado a Polícia Federal a deflagrar a ação, o prefeito passou a insinuar que a investigação pode ter sido provocada a partir do repasse de informações falsas ou distorcidas às autoridades.
“Tem que ver qual tipo de informação que foi apresentada, porque se é apresentada uma informação que não é verídica, pode estar se induzindo a Justiça ou as instituições a cometerem algum tipo de ação naquela informação que foi apresentada, talvez de forma errada”, declarou Allyson durante entrevista. A fala sugere que a Polícia Federal e o Judiciário trabalham com base em dados inconsistentes.
Ao mesmo tempo em que afirma confiar na Justiça, o prefeito busca deslocar o foco da operação para a origem das informações que embasaram a investigação. “A Justiça tá no seu direito de apurar. Se o melhor caminho é esse ou aquele, cabe à Justiça decidir. Não cabe a mim como político decidir”, disse, antes de reforçar que leu o processo, reuniu-se com advogados e que a defesa tratará do tema “do ponto de vista jurídico”.
A estratégia do discurso chama atenção porque, até aqui, a operação não foi deflagrada a partir de uma denúncia isolada ou de mera provocação política, mas sim após investigação conduzida pela Polícia Federal, com autorização judicial, baseada em indícios considerados suficientes para a adoção de medidas, como buscas e apreensões. Como já mostrado nos últimos dias, esse tipo de operação pressupõe relatório técnico da instituição, análise de provas preliminares e chancela do Judiciário, o que torna mais grave a tese de que tudo teria se baseado apenas em “informações não verídicas”.
Ainda assim, Allyson reforçou que só estaria se expondo publicamente porque acredita na própria versão. “Se eu não tivesse a clareza, se eu não tivesse a condição de dizer a verdade, eu não estaria aqui. Eu estou aqui porque acredito muito no que estou dizendo e estou mostrando dados e fatos do meu trabalho”, afirmou.
O prefeito, no entanto, não apresentou quais seriam esses dados nem explicou objetivamente quais pontos da investigação considera equivocados.
Durante a entrevista, a ex-deputada federal Sandra Rosado fez uma pergunta através do youtube gerando uma provocação política: “Algum prefeito de Mossoró por acaso teve busca e apreensão em sua casa?”. Allyson classificou o questionamento como “interessante” e passou a comparar o seu caso com outros escândalos no Rio Grande do Norte, citando, por exemplo, episódios envolvendo a Arena das Dunas, que envolveu a ex-governadora Rosalba Ciarlini. “Talvez na época não tenha sido feito algo com tanta ênfase, com tanta força”, disse, sugerindo tratamento desigual por parte das instituições.
Apesar disso, o prefeito evitou afirmar que tenha havido excesso ou perseguição direta. Questionado se a “dose” teria sido maior em seu caso, respondeu: “Não cabe a mim falar sobre isso. Eu deixo para a população avaliar”.
Ainda assim, voltou a reforçar a comparação com investigações de grande repercussão, como o caso dos respiradores durante a pandemia, que envolveu o Governo do Estado. “Foi comprovado, não é questão de suspeita. A governadora passou pelo que eu estou passando”, afirmou, lembrando que houve buscas e apreensões na Secretaria Estadual de Saúde.
Ao mesmo tempo em que faz as insinuações sobre o fato, Allyson Bezerra assegura isenção direta dele pessoalmente sobre os fatos investigados pela PF, jogando a responsabilidade para outros, sem citar quem. Anteriormente, em entrevista à mesma 98 FM, Allyson garantia que tinha controle de tudo que acontecia em sua gestão: “eu tenho controle de tudo que é de gasto. Não existe esse negócio de abre-aspas: “banda voou”, não. Não existe esse negócio de abre-aspas: “casa de Mãe Joana, não. Tem controle”, garantiu.
Agora, o prefeito tenta se isentar da responsabilidade, que recai sobre ele, segundo a PF, como topo do esquema de desvios em relação à parte que investiga Mossoró.
Ao recorrer a esses paralelos, Allyson tenta normalizar a operação e reduzir seu impacto político, mas também desloca o mérito da investigação que o atinge diretamente. Enquanto insinua que informações falsas podem ter chegado à Polícia Federal, a operação segue sem qualquer indicação pública de irregularidade na condução das investigações.
Na prática, o discurso do prefeito se contradiz quando, ao mesmo tempo em que diz respeitar a Justiça, lança dúvidas sobre os fundamentos que levaram à ação policial. Cabe agora à sua defesa demonstrar, nos autos, que a investigação foi baseada em dados inconsistentes ou se as insinuações ficarão restritas ao campo político, enquanto a apuração avança no campo jurídico.