No Cafezinho com César Santos, vereadora Marleide Cunha confirma pré-candidatura a deputada federal, diz que o espera do novo prefeito de Mossoró, Marcos Bezerra, e faz alerta sobre o ex-prefeito Allyson Bezerra, que é pré-candidato a governador
Crédito da foto: Jornal de Fato
Vereadora Marleide Cunha no Cafezinho com César Santos
Maria Marleide da Cunha Matias é uma professora, sindicalista e vereadora em segundo mandato na Câmara Municipal de Mossoró pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Conhecida por sua atuação na defesa da educação, serviços públicos e servidores, ela se destaca no campo da oposição à gestão municipal e na defesa dos direitos sociais e da causa animal.
A sua atuação firme em plenário, um ambiente dominado por vereadores governistas, legitima o projeto de chegar à Câmara dos Deputados. Marleide Cunha é pré-candidata à deputada federal pela Federação Brasil da Esperança e se apresenta como a única representante de Mossoró na disputa eleitoral que se aproxima.
Marleide Cunha tomou o “Cafezinho com César Santos” na manhã desta sexta-feira, 27, na sede do Jornal de Fato. Uma conversa longa sobre vários temas, mas com destaque para o momento administrativo de Mossoró, que passa a contar com novo prefeito, Marcos Bezerra (Republicanos), e para as eleições gerais de 2026.
Marleide diz que não alimenta boas perspectivas da gestão Marcos, por entender que ele governará Mossoró sob a influência do antecessor Allyson Bezerra. A vereadora fala com otimismo sobre a sua pré-candidatura à deputada federal e acredita que os eleitores mossoroense e oestanos vão entender a importância de terem uma legítima representante no Congresso Nacional.
Confira a entrevista:
Vereadora, Mossoró tem um novo prefeito, Marcos Bezerra, empossado nesta sexta-feira, 27. A senhora espera mudança de estilo ou uma relação conflituosa como foi com o prefeito Allyson Bezerra? Qual a perspectiva da oposição em relação ao novo gestor?
Olha, a gente sempre tem a esperança de que a relação melhore, de que haja espírito público por parte do gestor. Que ele tenha abertura para o diálogo — um diálogo institucional, respeitoso. Mas eu não sei se tenho muita esperança de que o novo prefeito vá agir com autonomia para administrar Mossoró. A gente sabe da forte influência de Allyson Bezerra sobre todos: sobre quem assumiu a prefeitura, que era o seu vice, e também na forma de conduzir as decisões. Allyson Bezerra tem um perfil extremamente autoritário. Quando ele define que algo deve ser feito de determinada maneira, ele não abre mão, não há espaço para diálogo ou mudança de opinião — a não ser que haja algum interesse. Então, ele está deixando a prefeitura com esse perfil. Eu torço para que o novo prefeito tenha autonomia de fato.

A senhora, que também é dirigente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, acredita que essa mudança no cargo de prefeito pode estabelecer uma nova forma de relação entre o gestor e as categorias de servidores?
Vamos ter a oportunidade para tirar uma impressão mais precisa das intenções de Marcos Bezerra. E digo isso porque teremos, já de imediato, a necessidade de negociação com os servidores públicos. Inclusive, antecipo que no dia 8 abril haverá uma parada de advertência na saúde, na assistência social e entre os servidores gerais. O novo prefeito vai assumir uma realidade de completa desvalorização do servidor público efetivo na gestão de Allyson Bezerra. Para se ter uma ideia, há servidores da saúde há cinco anos sem reposição inflacionária; técnicos de enfermagem ganhando abaixo do salário mínimo. Há servidores gerais há seis anos sem revisão salarial. Na assistência social, a situação é semelhante. Ou seja, o serviço público como um todo está precarizado. Como servidora pública e representante sindical, espero que o novo prefeito tenha capacidade de diálogo e sente à mesa para negociar, porque essa desvalorização afeta diretamente a qualidade do serviço público no município.
Diante dessa desconfiança sobre a influência de Allyson Bezerra, a oposição está pessimista em relação a um novo cenário com Marcos Bezerra?
Acho que precisamos aguardar um pouco para ver como o novo prefeito vai se comportar. Da minha parte, não há desânimo, mas existe um certo descrédito — no sentido de saber se ele terá pulso, autonomia e se compreenderá que é o prefeito de Mossoró, com responsabilidades diretas com a população. Ele assume uma gestão com servidores desvalorizados, adoecidos e desrespeitados. Vai lidar também com um Plano Diretor em tramitação na Câmara, que apresenta diversos problemas. Sem dúvida, Marcos Bezerra assume em momento delicado, que exigirá dele a capacidade de conduzir a gestão de forma democrática, responsável e séria, o que não aconteceu com Allyson Bezerra. Ele também vai assumir uma saúde caótica, com falta de medicamentos nas Unidades Básicas e reclamações diárias sobre ausência de atendimento odontológico. Há ainda dívidas na prefeitura. Portanto, é um cenário desafiador. Eu torço para que ele tenha condições reais de governar, sem ser apenas um instrumento nas mãos de Allyson Bezerra.

Allyson Bezerra tentou aprovar o novo Plano Diretor em regime de urgência, sem permitir maior debate entre os vereadores. Esse processo é um desafio para o novo prefeito, mas também exigirá responsabilidade da Câmara Municipal, que sempre aprova o que o Executivo determina. A senhora espera maior autonomia do Legislativo em torno do projeto do Plano Diretor?
O prefeito que saiu disse que houve diálogo com a população, mas, se observarmos, pouco mais de 400 pessoas participaram desse processo — um número irrisório diante da população de Mossoró de quase 300 mil habitantes. Além disso, o prefeito queria aprovar o Plano Diretor em regime de urgência, por uma questão de vaidade, para vincular seu nome ao projeto. Já tivemos um avanço importante ao impedir a aprovação em regime de urgência. Isso demonstra que há problemas e necessidade de maior debate.
O Plano Diretor tem gerado dúvidas na sociedade. O ponto mais visível é a redução da área urbana. Como a Câmara pode votar um projeto desse porte? Há conhecimento real do conteúdo ou corre-se o risco de uma votação “no escuro”?
O projeto foi aprovado em reunião conjunta de comissões, o que considero um equívoco, porque o Plano Diretor é extremamente complexo. Ele impacta toda a vida da população, não apenas na questão urbanística, mas também nas políticas para zona rural, saúde, meio ambiente. A redução da área urbana nos preocupa, especialmente do ponto de vista social. Menos área urbana significa terrenos mais caros, o que dificulta o acesso à moradia para pessoas de baixa renda. Programas como o Minha Casa, Minha Vida serão afetados, sobretudo para quem está na faixa 1. Além disso, a gestão não avançou em políticas habitacionais. Não houve investimento significativo nesse setor. E o projeto do Plano Diretor também falha na questão ambiental: não contempla políticas adequadas para o manejo de animais, ignorando um problema evidente em Mossoró, com grande número de animais abandonados. Outro ponto crítico é o aterro sanitário, que está no limite. Já solicitei informações ao IDEMA sobre sua licença. O Plano Diretor prevê 30 meses para elaboração de um plano de resíduos sólidos — um prazo longo e que ainda nos leva a outro período eleitoral. Isso é preocupante, considerando que já produzimos lixo diariamente sem uma política efetiva de coleta seletiva.

Vamos falar sobre eleições 2026. A senhora é pré-candidata à deputada federal, mas ainda há quem duvide se o seu partido confirmará a sua postulação. Essa situação existe dentro do PT?
Não há essa discussão. Nem faz sentido discutir sobre isso. Somos a única pré-candidata à deputada federal representando a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, o segundo maior colégio eleitoral do estado, o que legitima a nossa postulação. Penso que é a minha responsabilidade representar Mossoró e a região Oeste nessas eleições. É inaceitável Mossoró não ter uma representação legítima na Câmara dos Deputados. Precisamos de um representante no Congresso Nacional que seja daqui, que conheça as nossas dores, as nossas dificuldades, os nossos anseios, e que possa, verdadeiramente, lutar pelos interesses da nossa terra e da nossa região. A minha pré-candidatura preenche essa lacuna. A minha pré-candidatura se fortalece nessa necessidade, seremos o olhar voltado para Mossoró e região. Então, eu me coloco à disposição, com muita responsabilidade, a ser essa representante legítima de Mossoró. Além disso, há uma necessidade de termos mais representantes do campo democrático, do campo popular, no sentido de fazer o enfrentamento ao outro lado que terá apenas os candidatos apoiados por Allyson Bezerra, que não representa os anseios da população.
A ida de Samanda Alves, que é mossoroense, para a disputa ao Senado beneficia sua candidatura em Mossoró, já que a senhora passa a ser o único nome da cidade à Câmara?
Eu acredito que sim, principalmente do ponto de vista simbólico. Não temos problemas de candidaturas na federação — temos nominatas fortes. Com Samanda no Senado, posso dizer que sou a única candidata à deputada federal de Mossoró, o que fortalece essa identidade local. Dentro do partido, essa construção já está bem encaminhada. Há uma decisão política que prioriza essa candidatura, considerando a importância de Mossoró no cenário eleitoral. Defendemos um projeto de sociedade diferente, baseado no respeito aos trabalhadores, na justiça social. Defendemos, por exemplo, o fim da escala 6×1, por entender que o trabalhador precisa viver, ter tempo para sua família. E também entendo como minha responsabilidade alertar a população sobre quem é Allyson Bezerra. Considero que ele representa um risco no exercício do poder, pelo seu perfil autoritário e pela forma como trata adversários como inimigos. Há um projeto de poder pessoal, acima do interesse coletivo.

Com a mudança no cenário estadual e a pré-candidatura de Cadu Xavier ao governo, como o campo progressista se organiza para as eleições?
A governadora Fátima Bezerra tomou uma decisão com responsabilidade e coragem. Abriu mão da candidatura ao Senado em nome do projeto político. Do nosso ponto de vista, ela seria eleita, mas priorizou a continuidade do desenvolvimento do estado. Agora, os grupos progressistas vão à luta para evitar retrocessos. Tivemos avanços, apesar dos desafios, e não vamos abrir mão disso. A militância está mobilizada. Vamos para as ruas, dialogar com a população, defender a continuidade desse projeto. A eleição de um governador aliado ao presidente Lula é fundamental, assim como a formação de bancadas comprometidas com esse projeto. Hoje, vemos as dificuldades enfrentadas pelo governo federal justamente pela falta de alinhamento no Congresso. Por isso, é essencial que o eleitor compreenda que não se trata apenas de nomes, mas de projetos políticos. Defendemos uma sociedade mais justa, com dignidade, igualdade e oportunidades. Esse é o projeto que acreditamos e vamos defender.