Com apoio da federação União Progressista e dos partidos PSD, MDB e Solidariedade, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), confirmou neste sábado, 7, a sua pré-candidatura a governador do Rio Grande do Norte nas eleições deste ano.
O anúncio foi feito durante o encontro “Futuro do RN”, organizado pelos grupos políticos liderados por Maia e Alves. Estavam presentes no evento em Natal a senadora Zenaide Maia, o deputado federal João Maia, ex-senador Agripino Maia, o vice-governador Walter Alves, o ex-governador e deputado federal Robinson Faria, além da prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e a militância.
Também estava presente o deputado estadual Hermano Morais, que foi lançado por Walter Alves como pré-candidato a vice-governador.
A pré-candidatura de Allyson é confirmada no momento que a Operação Mederi, da Polícia Federal, desmantelou um esquema criminoso de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró, por meio de contratos com empresas distribuidores de medicamentos.
Segundo a Polícia Federal, Allyson Bezerra e o vice-prefeito Marcos Bezerra (PSD) estão no topo da estrutura criminosa, que conta ainda com a secretária de Saúde, Morgana Dantas, investigada no âmbito operação detonada no dia 27 de janeiro.
Em razão das investigações da Polícia Federal, Allyson Bezerra antecipou o lançamento de sua pré-candidatura. A ideia inicial era confirmar o projeto político-eleitoral somente no final de março, quando ele renunciará o cargo de prefeito para disputar as eleições, mas, o seu grupo político entendeu que era preciso se lançar agora para tentar estancar as investigações e a repercussão negativa.

Residência do prefeito Allyson Bezerra, no residencial Ninho, foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal
Financiamento
De acordo com a decisão judicial que autorizou a Operação Meredi, assinada pelo desembargador federal Rogério Filho, do TRF-5, o grupo criminoso que atuava no desvio de recursos da saúde de Mossoró, planejava acumular valores de propina para financiar futuras campanhas eleitorais do prefeito Allyson Bezerra e do vice-prefeito Marcos Bezerra.
Os diálogos interceptados pela Polícia Federal e citados na decisão do desembargador Rogério Fialho mostram os investigados Moabe Soares e Oseas Monthalggan, sócios da investigada DisMed Distribuidora, sugerindo a estratégia de “ir tirando aos pouquinhos” (o dinheiro desviado da saúde) e guardá-lo, em vez de realizar pagamentos imediatos. A intenção seria acumular o montante para ser entregue posteriormente como financiamento de campanha eleitoral.
Um dos sócios da DisMed propõe: “Vai tirando esse dinheiro e guardando. Quando for no final, quando for pra começar tá aqui MARCOS, aqui é um extra pra você”.
A decisão judicial destaca que os envolvidos discutem abertamente que parte da propina devida (mencionando o valor de cem mil reais) deveria ser reservada para a campanha eleitoral. O objetivo dessa manobra seria “criar moral com o HOMEM” (referência atribuída ao prefeito Allyson) visando projetos políticos futuros, incluindo a disputa pelo Governo do Estado.
Em outro trecho, quando Monthalggan discute explicitamente a estratégia de pagamento de propina a Marcos Bezerra vinculada ao financiamento de futura campanha eleitoral, Moabe Soares afirma: “Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está entendendo e cem…você guardando pra sua CAMPANHA.”
O magistrado federal escreve em sua decisão: “Essa fala não deixa muita margem a outras interpretações: os interlocutores discutem abertamente o pagamento de propina e sua destinação para campanha política.”
Para a Justiça, essas conversas demonstram que os supostos envolvidos no esquema estão cientes da dinâmica sucessória local e planeiam as suas ações ilícitas considerando este cenário político-eleitoral. A acumulação de recursos desviados da saúde pública teria, portanto, o fim específico de perpetuar o grupo no poder por meio do financiamento irregular de campanhas.
Esquema em sigilo
A transcrição captada pela Polícia Federal cita que um dos empresários diz que o prefeito de Mossoró tenta manter o esquema em sigilo no âmbito municipal. Segundo a decisão, ele chega a debochar do gestor.
“O problema porque é o seguinte: os cara… [inaudível]…se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo… ‘ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não!’ Aí os cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não….” [sic], diz um dos empresários.
Na decisão, o juiz cita que, “além do contexto geral do diálogo fazer referência à participação de Allysson Bezerra nos esquemas de corrupção, a assertiva revela o cuidado que este demonstra para se manter oculto nos esquemas de corrupção”.
O nome do prefeito e do vice-prefeito Marcos Bezerra são citados ainda em diálogos referentes ao planejamento para futuro favorecimento de uma possível campanha do vice para concorrer à prefeitura de Mossoró. Nos diálogos, segundo a decisão, “o grupo arquiteta a divisão de valores de propina, a fim de que sejam acumulados para eventual financiamento de campanha”.
A decisão cita que um dos sócios da empresa investigada tem relação direta com o vice-prefeito de Mossoró, o que foi constatado através da troca de mensagens e ligações.
Polícia Federal apreendeu dinheiro em caixas
A Polícia Federal cumpriu 35 mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Meredi nas cidades de Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, José da Penha e São Miguel, todas na região Oeste do Rio Grande do Norte.
Polícia Federal cumpriu 35 mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Meredi nas cidades de Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, José da Penha e São Miguel, todas na região Oeste do Rio Grande do Norte.
Segundo a PF, foram apreendidos R$ 219 mil, divididos em 7 locais de busca; 20 celulares; 17 outras mídias (pen drive, computador); e 2 veículos. O dinheiro apreendido estava guardado em caixa de isopor.
Um empresário de Serra do Mel, sócio de empresa envolvida, foi conduzido em flagrante para a Polícia Civil por posse ilegal de arma de fogo. A Justiça determinou medidas cautelares diversas contra os empresários, inclusive pagamento de fiança e implementação de tornozeleira eletrônica relativos a sócios e funcionários das empresas investigadas.