O indiciamento de Abraão Lincoln por corrupção na Operação Sem Desconto provoca impacto em um dos palanques da disputa ao Governo do Rio Grande do Norte. Ele firmou aliança com Allyson Bezerra, ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato a governador.
Da Redação do Jornal de Fato
O político potiguar Abraão Lincoln está entre as 48 pessoas indiciadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, que descortinou esquema criminoso que desviou mais de R$ 6 bilhões por meio de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo apurou a Polícia Federal, Abraão participou do esquema por meio da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), entidade presidida por ele. Na lista dos indiciados também estão o “Careca do INSS”, apontado como um dos líderes da organização; Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS; e José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência Social.
Os indiciados são suspeitos de crimes como inserção de dados falsos em sistemas de informação, corrupção passiva e ativa, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
O indiciamento de Abraão Lincoln provoca impacto em um dos palanques da disputa ao Governo do Rio Grande do Norte. Ele firmou aliança com Allyson Bezerra (União Brasil), ex-prefeito de Mossoró e pré-candidato a governador. A imagem de Abraão, que já era questionada, dada ao seu envolvimento em casos de corrupção, certamente será tema da campanha eleitoral deste ano.
Allyson e Abraão se uniram no fim de março deste ano, quando o Republicanos foi entregue ao pré-candidato a governador. A presidência estadual do partido passou a ser ocupada pelo atual prefeito de Mossoró, Marcos Bezerra, que é liderado por Allyson, e a vice-presidência ficou com um filho de Abraão.
Além disso, Abraão Lincoln passou a apoiar a ex-primeira-dama de Mossoró, Cinthia Pinheiro, esposa de Allyson, que é pré-candidata à deputada estadual. Recentemente, Cinthia e Abraão cumpriram agenda juntos no interior do estado, com publicação de foto nas redes sociais, que foi apagada em seguida devido à repercussão negativa.
O Republicanos, de Abraão Lincoln, também trabalha para ocupar mais espaço na chapa majoritária. O partido indicou o empresário paraibano Netinho Lins para a primeira suplência da senadora Zenaide Maia (PSD).
Confederação presidida por Abraão movimentou R$ 57,8 milhões
A Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), presidida por Abraão Lincoln, foi colocada no centro das investigações da Operação Sem Desconto, detonada pela Polícia Federal para desmantelar um esquema de corrupção milionária que enganou aposentados e pensionistas do INSS.
Abraão foi ouvido pela CPMI do INSS e preso ao sair da sessão, sob acusação de que havia mentido em seu depoimento. Ele foi convocado pela comissão na condição de investigado. Para justificar a convocação, a CPMI escreveu no requerimento:
“Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), peça basilar da investigação, é demolidor ao descrever a sede da CBPA como uma ‘pequena sala comercial’, com apenas ‘uma secretária para atendimento’, e concluir que a Confederação ‘não possui infraestrutura para localização, captação, cadastramento e muito menos fornecimento de serviços’ compatíveis com seu universo de 360.632 associados, espalhados por mais de 3.600 municípios.”
Abraão Lincoln é apontado ao lado do tesoureiro da CBPA, Paulo Gabriel Negreiros, como articulador de um esquema de falsificação de filiações em massa para obter ganhos ilegais com descontos em benefícios previdenciários. Gabriel, que já disputou eleição para vereador em Natal em 2020, aparece no inquérito da Polícia Federal como o braço financeiro da operação. Ele teve prisão preventiva decretada em dezembro de 2025, quando a Polícia Federal decretou nova fase da Operação Sem Desconto no Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais e São Paulo.
Outro requerimento da CPMI do INSS pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Abraão Lincoln, abrangendo o período entre janeiro de 2019 e julho de 2025. O pedido inclui detalhamento de movimentações financeiras, operações de crédito, notas fiscais, declarações de imposto de renda e análises comparativas com anos anteriores, entre outros quase 20 itens relacionados às movimentações.
A Polícia Federal afirma que embora não tivesse filiados em 2022, a CBPA firmou um acordo com o INSS e, já em 2023, contabilizava mais de 340 mil associados, movimentando R$ 57,8 milhões. Apenas nos três primeiros meses de 2024, o número chegou a 445 mil filiados, com faturamento de R$ 41,2 milhões.
Abraão foi preso em 2015 na Operação Enredados
O passado de Abraão Lincoln é comprometedor. Em 2015, ele foi preso na “Operação Enredados”, acusado de participar de vendas ilegais de permissões para a pesca industrial. Na época, ele era presidente da Confederação Nacional dos Pescadores e Aquicultores (CNPA) e filiado ao Partido Republicano Brasileiro (PRB), hoje Republicanos.
A prisão de Abraão foi efetuada no Rio Grande do Sul. Tempo depois, ele conseguiu liberdade com uso de tornozeleira eletrônica. A Operação Enredados desarticulou uma organização criminosa que fraudava licenças de pesca industrial. O esquema de corrupção, que operava dentro do então Ministério da Pesca e do Ibama, causou um prejuízo bilionário aos cofres públicos.
O que chama atenção, além do histórico suspeito do político, é a facilidade que ele encontra para continuar atuando na vida pública, inclusive, circulando bem próximo de autoridades políticas do país. Em julho do ano passado, Lincoln apareceu em foto com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). O próprio Abraão registrou a foto nas redes sociais destacando Motta como um “amigo”.
Na época da Operação Enredados, Abraão Lincoln, que é um dos vice-presidentes da Força Sindical, destacava a sua influência com políticos de Brasília, como o presidente do Solidariedade, ex-deputado Paulinho da Força, e o presidente do PRB, deputado federal Marcos Pereira. A partir daí, ele sustentava estrutura política no Rio Grande do Norte, liderando o Republicanos, além das atividades sindicais no setor da pesca.
Abraão Lincoln tentou se eleger deputado federal em 2018, sem sucesso. Quatro anos depois, em 2022, lançou o filho Victor Hugo à Câmara dos Deputados, mas também sem sucesso. Não se deu por vencido.
Aos mais próximos, Abraão Lincoln não nega a necessidade de ter políticos com mandato para “blindar” o seu nome de possíveis sanções.