Estado passa de cerca de R$ 700 milhões em 2024/2025 para R$ 780 milhões apenas para pequenos produtores no ciclo seguinte
O volume de recursos do Plano Safra destinados ao Rio Grande do Norte registrou crescimento relevante nos dois últimos ciclos, com reforço do direcionamento à agricultura familiar e à diversificação das áreas atendidas. Após um ciclo 2024/2025 com aproximadamente R$ 698,6 milhões disponíveis ao Estado — valor operado majoritariamente pelo Banco do Nordeste —, o Plano Safra 2025/2026 foi lançado com R$ 780 milhões exclusivamente para a agricultura familiar potiguar, indicando uma mudança de escala e de prioridade na política de crédito rural.
No ciclo 2024/2025, os recursos foram distribuídos entre agricultura familiar, que concentrou a maior parcela, com algo entre R$ 500 milhões e R$ 542 milhões, e a agricultura empresarial, que recebeu de R$ 156 milhões a R$ 185 milhões, conforme dados de contratação e disponibilidade. Parte desse montante também contemplou pesca e aquicultura, com cerca de R$ 27,7 milhões voltados a investimentos em embarcações, equipamentos e infraestrutura produtiva.

Agricultura familiar concentrou maior parcela dos recursos do Plano Safra no ciclo 2024/25: mais de R$ 500 milhões – Foto: Diógenes Nóbrega / Emater-RN
Já no ciclo 2025/2026, o montante anunciado de R$ 780 milhões para a agricultura familiar representa um avanço significativo frente ao ano anterior, tanto em volume financeiro quanto em alcance. A expectativa é de ampliação no número de contratos, com crédito pulverizado entre pequenos produtores rurais, assentados e agricultores de base familiar espalhados pelas diferentes regiões do Estado.
Nos dois períodos, a agricultura familiar permaneceu como o principal destino dos financiamentos. As linhas de crédito priorizaram custeio da produção, aquisição de máquinas e equipamentos, investimentos em infraestrutura produtiva, além de iniciativas voltadas à irrigação sustentável, agroecologia e fortalecimento da produção de alimentos básicos.
O Plano Safra mais recente também ampliou o foco em ações estruturantes para o semiárido, como projetos de convivência com a escassez hídrica, apoio à implantação de tecnologias de uso racional da água e incentivo a sistemas produtivos de menor impacto ambiental. Programas de compras públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), seguem como complemento ao crédito, garantindo mercado para a produção familiar.
No segmento empresarial, atendido sobretudo no ciclo 2024/2025, os recursos financiaram atividades de pecuária, culturas comerciais e investimentos de maior porte em infraestrutura agrícola. A pesca e a aquicultura, embora com participação menor no volume total, mantiveram espaço como atividade estratégica para determinadas regiões do litoral e do interior potiguar.
Mudança de perfil
A comparação entre os dois ciclos indica uma reorientação do Plano Safra no RN, com redução relativa do peso da agricultura empresarial e fortalecimento explícito da agricultura familiar como eixo central da política de crédito. O movimento acompanha a estratégia nacional de estímulo à produção de alimentos, geração de renda no campo e adoção de práticas sustentáveis.
Para o Estado, a expansão dos recursos ocorre em um contexto de desafios climáticos recorrentes e de necessidade de modernização da base produtiva rural. O aumento do crédito, aliado à diversificação das linhas financiadas, tende a ampliar a capacidade de investimento dos produtores e a reduzir a vulnerabilidade econômica em regiões mais expostas às oscilações do clima.
Com isso, o Rio Grande do Norte consolida, nos últimos dois anos, um salto no volume e na focalização dos recursos do Plano Safra, reforçando o papel do crédito rural como instrumento de política econômica e social no campo.
Faern: Dados refletem perfil produtivo do semiárido e exige leitura cuidadosa
Os volumes de recursos do Plano Safra contratados no Rio Grande do Norte nos ciclos recentes são considerados relevantes e compatíveis com o perfil produtivo do Estado, mas demandam análise criteriosa. A avaliação é da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern), que destaca a necessidade de compreender o funcionamento do Plano Safra para evitar interpretações imprecisas sobre a distribuição dos recursos.
Segundo a entidade, o Plano Safra não opera como um orçamento que “destina” valores por decisão administrativa a cada Estado. Trata-se de um conjunto de linhas de crédito com condições previamente definidas, cujo resultado final depende da demanda dos produtores, da capacidade de contratação e da avaliação de risco feita pelas instituições financeiras. Nesse sentido, os valores aplicados no RN refletem características estruturais da agropecuária local, como a predominância da agricultura familiar, a maior dependência do crédito oficial e as restrições impostas pelo risco climático do semiárido.
A maior participação da agricultura familiar nas contratações é vista pela Faern como consequência direta desse contexto. O segmento responde pela maior parte dos estabelecimentos rurais do Estado, opera, em geral, com menor capitalização e depende mais intensamente de linhas como o Pronaf para custeio e investimentos. Para a Faern, esse resultado não indica uma escolha excludente da política pública, mas sim a aderência da agricultura familiar às condições de acesso existentes e à sua demanda efetiva por crédito.
A entidade avalia positivamente a diversificação das linhas do Plano Safra, com foco em máquinas, produção de alimentos básicos e novas modalidades voltadas à agroecologia e à irrigação sustentável. Essas iniciativas são consideradas estratégicas para elevar eficiência produtiva, fortalecer a segurança alimentar e ampliar a adaptação às condições climáticas do semiárido. No entanto, a Faern ressalta que o principal desafio não está na criação de novas linhas, mas em garantir o acesso efetivo a elas, o que exige assistência técnica, simplificação operacional e integração entre crédito, gestão produtiva e mitigação de riscos.
No caso da agricultura empresarial, o volume contratado no RN reflete fatores como maior exposição ao risco climático, juros mais elevados em comparação às linhas do Pronaf, exigências mais rigorosas de garantias e, em alguns casos, endividamento acumulado. Apesar disso, a Faern destaca a importância do segmento para a geração de renda e a dinamização das cadeias produtivas, defendendo instrumentos mais adequados ao produtor médio e empresarial do semiárido, com prazos mais compatíveis, seguro rural e linhas voltadas à convivência com a seca.
A Federação também chama atenção para a necessidade de diferenciar, nos balanços, os recursos do Plano Safra de financiamentos destinados à pesca, aquicultura e programas complementares. Embora relevantes para o meio rural, essas políticas nem sempre integram diretamente o Plano Safra.
Para a Faern, o desafio central não é apenas ampliar volumes de crédito, mas assegurar que o Plano Safra cumpra seu papel como indutor do desenvolvimento produtivo da agropecuária potiguar, em um ambiente marcado por elevado risco climático e limitações estruturais.