Por Dinarte Assunção

A Operação Mederi é a maior investigação de corrupção em curso no Rio Grande do Norte, e o Blog do Dina acompanha o caso desde a primeira hora. Deflagrada pela Polícia Federal em 27 de janeiro de 2026, ela apura um suposto esquema de desvio de dinheiro da saúde pública que teria como pivô uma distribuidora de medicamentos — a Dismed — e como figura central o então prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra.
Em mais de 30 reportagens, o Blog do Dina leu as escutas, as decisões judiciais e os relatórios que sustentam a investigação. Esta página reúne tudo num só lugar: o que a PF apura, como o esquema funcionava, quem são os investigados — e o link para cada matéria da série.
A apuração trata de cinco frentes criminais: fraude em licitações, corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Allyson Bezerra é descrito nos autos como “chefe da estrutura criminosa”. É preciso dizer com clareza: ninguém foi condenado. A investigação segue em andamento, todos os citados são suspeitos, e as defesas — que negam as irregularidades — aparecem ao longo desta página.
Há um motivo para tudo girar em torno de Mossoró: a cidade é o epicentro do esquema. Os contratos de Mossoró respondem por 59% do faturamento que a Dismed tinha com as seis prefeituras investigadas — e foi de Mossoró que partia o volume que sustentava a operação nas demais cidades. “Agora na Dismed hoje, se não tivesse Mossoró, nós não tinha volume”, disse um dos operadores numa escuta. É por isso que Allyson Bezerra, então prefeito de Mossoró, é a figura central da investigação: a PF descreve sua anuência como “essencial para a manutenção” do sistema de fraudes.
Resumo rápido do caso
- O que é: investigação da Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União e acompanhamento do Ministério Público Federal, sobre desvio de recursos da saúde no RN.
- Quem investiga: a PF; a operação foi autorizada pelo desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do TRF-5.
- Quem é o alvo central: Allyson Bezerra, então prefeito de Mossoró, apontado como chefe do esquema.
- O pivô: a distribuidora de medicamentos Dismed.
- Quando começou: inquérito aberto em 24 de novembro de 2023; fase ostensiva em 27 de janeiro de 2026, com 35 mandados em cinco cidades — Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel e José da Penha, todas com contratos com a Dismed e prefeitos ou auxiliares investigados.
- Em que pé está: investigação em andamento, sem denúncia recebida nem condenação; sigilo parcialmente levantado.
O que a Polícia Federal apura
No centro do caso está a Dismed — Distribuidora de Medicamentos Ltda., sediada em Mossoró. A PF apura que a empresa, dos sócios Oseas Monthalggan Fernandes Costa e Maycon Lucas Zacarias Soares, era o canal de um esquema: a Prefeitura emitia ordens de compra de remédios, a Dismed entregava parte dos produtos — ou produtos vencidos — e a diferença voltava em dinheiro, como propina.
Os números chamam atenção. A empresa saiu de um prejuízo de R$ 464,93 em 2023 para um lucro líquido de mais de R$ 2 milhões em 2024. Só nos contratos de Mossoró, a PF estima que o esquema rendeu R$ 833 mil em propinas. A Dismed firmou contratos com pelo menos 14 prefeituras do Rio Grande do Norte.
A investigação aponta Allyson como chefe de uma estrutura de três níveis: no topo, prefeito e vice; no meio, secretários e diretores financeiros; na ponta, fiscais que atestariam falsamente a entrega dos remédios. Sua anuência, diz a PF, seria “essencial para a manutenção” do sistema. Parte do dinheiro, segundo a apuração, seria guardada para financiar campanhas eleitorais — inclusive a pretensão de Allyson de disputar o Governo do RN.

A “Matemática de Mossoró”
A frase que batiza o esquema saiu das próprias escutas. Para cada contrato, os sócios da Dismed calculavam quanto sobrava depois da propina. Um empresário resumiu numa frase que virou síntese do caso: “ele comeu 60, 15% de Allyson”.
A PF captou a fórmula em áudio. Metade do contrato virava mercadoria a preço de custo; sobre a outra metade, 25% iam para propina, repartidos entre dois beneficiários. “Quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento”, explicou Oseas numa conversa interceptada. Os 15% seriam destinados a Allyson; os 10%, a uma mulher que aparece nas escutas apenas como “Fátima”.
Quem é “Fátima”? A PF não confirmou. Os documentos falam em “muito provável” e traçam o perfil de uma empresária do ramo de eventos — mas a identidade segue como suspeita não confirmada, e o Blog do Dina não a trata como pessoa identificada.
Isopor, conta de menor e holding: o caminho do dinheiro
A investigação descreve técnicas que vão do sofisticado ao rudimentar para esconder o dinheiro. Havia espécie guardada em caixas de isopor — “pegar 10 (mil) aqui que eu tenho no isopor”, diz uma mensagem entre os sócios. Havia depósitos numa conta de menor de idade e uma holding, a MS Empreendimentos, criada para abrigar quotas e blindar patrimônio. Para escapar do controle do Coaf, os saques eram fracionados: 22 retiradas de R$ 49 mil, somando R$ 1,07 milhão.
As buscas mostraram o dinheiro de perto. No apartamento de Allyson em Natal, a PF apreendeu uma planilha que controlava R$ 19,6 milhões. Na casa do secretário de Saúde Almir Mariano, R$ 57,5 mil em maços espalhados por mochilas e gavetas.
E há o lado humano do prejuízo. Em Serra do Mel, a PF encontrou remédios com um único dia de validade — mil comprimidos para hipertensão — e estima um prejuízo de R$ 4 milhões no município.
O pulmão que enchia de ar: como o esquema se espalhou
Mossoró era o coração, mas não o limite. A Dismed levou o modelo a outras cidades — São Miguel, José da Penha, Serra do Mel, Apodi, Pau dos Ferros. A técnica para evitar novas licitações era a “carona”: municípios aderiam a atas de registro de preços de outras prefeituras. “Toda carona você tem o seu”, registra uma escuta sobre a propina cobrada a cada adesão.
Um ex-sócio da Dismed resumiu a dependência numa imagem: “o pulmão enchia de ar” — era o volume de Mossoró que sustentava a operação nas demais cidades. Em São Miguel, a PF descreve um esquema para “recompor” o salário do prefeito Leandro Michel do Rego Lima, médico que ganhava cerca de R$ 100 mil por mês antes do cargo.
A guerra do sigilo
Uma disputa atravessa toda a série: quem realmente pediu o fim do sigilo do inquérito. A defesa de Allyson protocolou, em fevereiro, um pedido de levantamento do sigilo “em nome da transparência”. Mas a decisão do desembargador já determinava esse levantamento desde 22 de janeiro — antes do pedido. Quando a defesa negou que houvesse tal determinação, o Blog do Dina publicou o trecho da decisão que comprovava o contrário.
Em maio, o movimento se inverteu. Os irmãos Leandro e Lincoln Lima, de São Miguel, entraram com habeas corpus no STJ pedindo o oposto: lacrar o material apreendido, barrar a perícia e impor segredo de justiça. A defesa, pelo advogado Marcos Aurélio Santiago Braga, sustenta que faltaram “fundadas razões” e fala em “pescaria probatória”. O ministro relator Joel Ilan Paciornik negou a urgência e negou o segredo de justiça. Procurado, o gabinete do desembargador Rogério Fialho Moreira não comentou as decisões fora dos autos.
O que já mudou: as consequências
- Na Justiça: a decisão de 30 de março bloqueou bens e valores em mais de R$ 13,3 milhões e manteve tornozeleiras e fianças para os investigados.
- Na administração: a Dismed e a Drogaria Mais Saúde foram desclassificadas de licitação em Mossoró. O faturamento da empresa despencou 87% entre janeiro e fevereiro de 2026.
- Na política: o TCE-RN recomendou a reprovação das contas de 2021 de Allyson, o que pode torná-lo inelegível. Allyson renunciou à Prefeitura; o vice, Marcos Medeiros — também investigado —, assumiu em 27 de março de 2026.
A linha do tempo da Operação Mederi
- 24/11/2023 — A PF abre o inquérito da Operação Mederi.
- 22/01/2026 — O desembargador Rogério Fialho Moreira determina o fim do sigilo após o cumprimento das medidas.
- 27/01/2026 — Fase ostensiva: 35 mandados de busca e apreensão em cinco cidades.
- 03/02/2026 — Dismed e Drogaria Mais Saúde são desclassificadas de licitação em Mossoró.
- 23/02/2026 — O Blog do Dina publica “Quem é Fátima?”.
- 26/02/2026 — O TCE-RN recomenda a reprovação das contas de 2021 de Allyson.
- 03/03/2026 — A PF estima R$ 833 mil em propinas só em Mossoró.
- 27/03/2026 — Marcos Medeiros assume a Prefeitura de Mossoró após a renúncia de Allyson.
- 30/03/2026 — O desembargador julga os pedidos das defesas; bloqueio de R$ 13,3 milhões.
- 19/04/2026 — Reportagem revela a planilha de R$ 19,6 milhões apreendida com Allyson.
- 22/05/2026 — Os irmãos Lima entram com habeas corpus no STJ pedindo para lacrar o material da operação.
Quem é quem na Operação Mederi
O caso tem dezenas de pessoas e empresas no radar da Polícia Federal. Esta seção organiza os principais investigados nos três núcleos descritos pela PF: a Prefeitura de Mossoró, a empresa que operava o esquema (Dismed) e os agentes públicos de outras cidades onde a fraude teria se espalhado. Nenhum é condenado.
Núcleo da Prefeitura de Mossoró
Allyson Leandro Bezerra Silva (Allyson Bezerra) — ex-prefeito (União Brasil), apontado pela PF como chefe da estrutura criminosa e suposto beneficiário de 15% das propinas. Recusou-se a entregar senhas de celulares à PF e omitiu itens apreendidos ao relatar a operação nas redes. Pré-candidato ao Governo do RN; renunciou ao cargo. Defende-se dizendo que a investigação se baseia em “diálogos de terceiros” sem fato que o vincule diretamente.
Marcos Antônio Bezerra de Medeiros (Marcos Medeiros, “Marco”) — vice de Allyson; assumiu a Prefeitura em 27 de março de 2026. A PF o descreve como “ponto de contato” entre a Dismed e a Prefeitura e como “provavelmente o atual vice-prefeito… destinatário de valores a título de propina”. A defesa nega irregularidades.
Almir Mariano — ex-secretário de Saúde de Mossoró (fev-ago/2025). Teve R$ 57,5 mil em maços de dinheiro apreendidos em casa. A PF o trata como “gerente administrativo que validava formalmente os contratos e pagamentos fraudulentos”.
Poliana Rezende Dantas — diretora financeira da Secretaria de Saúde, nomeada por portaria de Allyson em janeiro de 2025. Trocava mensagens com um dos sócios da Dismed 23 dias antes da nomeação. O juízo aponta “impossibilidade de execução do esquema sem sua participação ou omissão deliberada”.
Núcleo empresarial — Dismed e Drogaria Mais Saúde
Oseas Monthalggan Fernandes Costa — sócio-administrador da Dismed (50%), descrito pela PF como principal operador do esquema. Autor das frases-chave nas escutas sobre a divisão das propinas.
Maycon Lucas Zacarias Soares — sócio da Dismed (50%), cunhado de Oseas. Transferiu suas quotas para a holding MS Empreendimentos. A PF encontrou em sua casa uma pistola Taurus .380 e 22 munições — foi conduzido por posse irregular de arma.
José Moabe Zacarias Soares (Moabe) — sócio da Dismed, também vice-prefeito de Serra do Mel. Aparece nas escutas discutindo pagamentos de propina.
Raimundo Wandecy Campelo Gurgel (“Nenén”) — ex-sócio e funcionário da Dismed. Autor da metáfora “o pulmão enchia de ar” sobre a dependência de Mossoró.
Roberta Ferreira Praxedes Costa — esposa de Oseas e sócia da Drogaria Mais Saúde; investigada.
Rayca Mariana Praxedes Fernandes — filha de Oseas. Sua conta bancária foi usada para movimentar valores que a PF aponta como lavagem.
Vitória Cibele Pinheiro Bezerra Soares — esposa de Maycon, ex-sócia da Dismed. A PF diz que ela “atuava no armazenamento e repasse de numerário”.
Sidney Carlos de Melo — representante comercial intermediário da Dismed.
Núcleo de agentes públicos em outras cidades
Leandro Michel do Rego Lima — prefeito de São Miguel desde 2025, médico. A PF descreve um esquema para “recompor” o salário que ele tinha como médico (cerca de R$ 100 mil por mês). Impetrou habeas corpus no STJ junto com o irmão pedindo para lacrar o material da operação.
Lincoln Micaele Rêgo Lima — irmão de Leandro. A PF o trata como “principal articulador” do direcionamento de licitações em São Miguel e do pagamento de propina. A defesa contesta o cargo de chefe de gabinete que a PF lhe atribui, alegando que ele “não possui qualquer vínculo com a municipalidade”.
Ana Jarvis de Souza Mafaldo Gomes (“A Chefona”) — chefe de gabinete da Prefeitura de José da Penha e irmã do prefeito. Apontada como quem assumiu o controle da propina e afastou o pregoeiro.
Fabiano Ferreira Alves — pregoeiro de José da Penha, afastado pela Chefona mas que, segundo as escutas, seguia cobrando sua parte.
João Evaristo Peixoto — prefeito de Paraú; investigado, teve fiança reduzida de R$ 100 mil para R$ 30 mil pelo desembargador.
Outras gestões onde a PF aponta que o esquema “se espalhou”
A matéria sobre a “Infecção” da série descreve a chegada do esquema a outras prefeituras, mas estes nomes aparecem como gestões onde o sistema teria se reproduzido — e não, até aqui, como investigados formais individualmente:
Marianna Almeida — prefeita de Pau dos Ferros, que declarou apoio público a Allyson. Luis Sabino da Costa Neto (Sabino Neto) — prefeito de Apodi (MDB), idem. Alan Jefferson da Silveira Pinto — ex-prefeito de Apodi (2021-2024), signatário dos primeiros contratos da Dismed no município. Os três negam irregularidades.
“Fátima” — a suspeita não identificada
Mulher citada nas escutas como beneficiária de 10% das propinas. A PF NÃO confirmou a identidade — usa qualificadores como “muito provável” e “provavelmente seja”. O Blog do Dina optou por não citar nome, “por entender que os documentos não concluem ainda efetivamente de quem se trata”.
Justiça e órgãos de controle
Rogério Fialho Moreira — desembargador federal do TRF-5 (Recife); autorizou a operação e julga os pedidos das defesas. Procurado em maio, seu gabinete respondeu que “não tece comentários sobre decisões proferidas pelo próprio desembargador federal ou por outros magistrados”.
Joel Ilan Paciornik — ministro do STJ, relator do habeas corpus dos irmãos Lima; negou o pedido de urgência e o segredo de justiça (março/2026).
Todas as reportagens do Blog do Dina sobre a Operação Mederi
- Em São Miguel, PF descobre esquema para “recompor” salário do prefeito — 27/01
- Áudios revelam a cautela de Allyson para ocultar ilicitudes — 27/01
- Dinheiro desviado seria para campanha de governador de Allyson, aponta PF — 27/01
- “Matemática de Mossoró”: a cobrança de 15% para Allyson — 27/01
- Allyson é apontado como chefe de estrutura criminosa — 27/01
- “Ele comeu 60, 15% de Allyson”: a matemática da propina — 27/01
- A cegueira milionária de Allyson Bezerra — 27/01
- Dinheiro no isopor, conta de menor e holding: as técnicas de lavagem — 28/01
- José da Penha: “A Chefona” assume o controle da propina — 28/01
- Remédios com um dia de validade: o que a PF achou em Serra do Mel — 29/01
- A Dismed firmou contratos com mais 12 municípios além dos investigados — 30/01
- O fato novo que Allyson pretende produzir para virar o noticiário — 30/01
- Empresas investigadas são desclassificadas de licitação em Mossoró — 03/02
- Allyson colabora, mas nega senhas e omite itens apreendidos — 09/02
- O secretário Almir Mariano e os R$ 57,5 mil em maços de dinheiro — 11/02
- O levantamento do sigilo já estava determinado — 12/02
- A defesa nega o fim do sigilo — e o Blog publica a decisão — 12/02
- Quem é “Fátima”? As suspeitas da PF sobre a beneficiária de 10% — 23/02
- PF rastreia R$ 530 mil pagos a servidoras da gestão Allyson — 25/02
- TCE recomenda a reprovação das contas de Allyson — 26/02
- Servidora explica transação de R$ 100 mil: “foi a venda de um galpão” — 02/03
- PF estima que o esquema recebeu R$ 833 mil em propinas — 03/03
- Um caminho tortuoso para Flávio Rocha — 11/03
- Sócios da Dismed trataram de pagamento com diretora nomeada por Allyson — 12/03
- Desembargador julga os pedidos das defesas: o que foi negado e aceito — 30/03
- A planilha de R$ 19,6 milhões apreendida no apartamento de Allyson — 19/04
- O sucessor de Allyson: o papel do novo prefeito no esquema — 06/05
- Sócios da Dismed combinaram a entrega de envelope após saída do banco — 15/05
- A Infecção: como o esquema se espalhou para outras prefeituras — 15/05
- “O pulmão cheio de ar”: a dependência da gestão Allyson — 20/05
- Defesa quer lacrar o material da Mederi e barrar a perícia — 22/05
- O gabinete do desembargador responde ao habeas corpus — 22/05
Última atualização
22 de maio de 2026. A novidade mais recente do caso é o habeas corpus dos irmãos Leandro e Lincoln Lima no STJ, que pede para lacrar o material apreendido e barrar a perícia. O ministro Joel Ilan Paciornik negou a urgência e o segredo de justiça; o mérito será julgado depois. Esta página é atualizada a cada novo desdobramento da Operação Mederi.
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